domingo, 28 de fevereiro de 2021

 ANTENADOS OU ALGEMADOS?

Tenho um amigo espirituoso e engraçado, contador de piadas, com uma memória invejável para os detalhes de cada uma delas, um talento único para dar a cada uma o tom necessário, encantando a plateia e alimentando-nos com alegria pelo raciocínio rápido e espontâneo. As suas piadas, mesmo repetidas fazem sucesso.

Quando ele aparece poucos ficam os aquela “cara de parede”, sem quadros. Sua presença é garantia de movimento facial em sorrisos que se transformam em boas gargalhadas e brilho nos olhos.

Somos uma turma de terceira idade, mas antenados nas novidades, cada um tempo seu celular, internet e somos capazes de incluir, em nosso cotidiano, as mídias da atualidade. Temos Facebook, WhatsApp, Twitter, etc...

Somos veteranos que participam e adquirem os NOVO BRINQUEDOS CIBERNÉTICOS.

Apreciamos nossos encontros de casais, anualmente. Os homens tem um grupo, chamado de “confraria do vinho”, cuja reunião acontece semanalmente, comem, bebem e jogam conversa fora com a finalidade de desabafar sobre os problemas da politica, no Brasil as divulgações da imprensa dão motivo de sobra para discordâncias e desabafos. Enfim fofocam e contam as novas piadas aprendidas aqui e acolá.

Algo me surpreendeu, a maioria depositou o celular ao lado dos talheres. Antenados demais! Mantinham o celular ao alcance imediato dos olhos. Enquanto conversávamos seus olhares desviavam curiosos para a tela que os provocava mostrando as mensagens recebidas.

Conversa vai, conversa vem, pedidos realizados, comida saborosa, vinho excepcional, conversa fluindo com a alegria  do reencontro dos casais, após um ano sem reunião e alguém teve a iniciativa de fazer uma foto para registar evento. Clics, clics e mais clics começaram a pipocar de vários celulares, cada fotos compartilhada com envios simultâneos sucederam um após o outro, quando alguém diz... - quero ver, outro... - apaga essa!

Por Deus, estávamos lado a lado, para que enviar se podíamos nos olhar,  nos olhos uns dos outros e sentir a alegria da presença?

Conversas cruzadas e meu amigo resolveu contar uma piada, muito engraçada, rimos até gargalhar; alguém diz: - vamos conta outra, mesmo velha (já conhecida); afinal sempre é possível recriar, trocar os personagens e atualizar os assuntos das velhas piadas.

Ele pegou o celular, tentando encontrar alguma nova piada para nos alegrar. Com este gesto ele acabou dando a deixa para que os outros pegassem o próprio celular, buscando vídeos, textos e piadas. Foi um tal de mostra vídeo, leitura de textos e a piada do meu amigo se perdeu para uma competição de memória virtual, coisas que a maioria já havia recebido, rindo solitários na própria telinha.

Meu amigo e sua forma espontânea de nos divertir “perdeu o rebolado”, pois ler uma piada é algo que desvirtua o senso do humor de quem ouve.

Nossa noite terminou como um vídeo que se vê e se esquece, mas sem o registro de memória emocional e natural ao bem viver. Quem sabe para o próximo encontro tenhamos abandonado esta forma doida de relacionamento, quem sabe para o próximo encontro tenhamos tirado as algemas que nos prendem aos celulares e voltemos a nos olhar como pessoas libertas de tantas mídias que nos abduzem para o PAÍS DAS NUVENS!

Texto escrito em 28/02/2015 por Lina Schroeder 

PS - Depois desse encontro, tivemos dois outros sem que os celulares participassem.

Hoje 28/02/2021 seis anos após, o que vejo? Rsrsr, nos tornamos mais dependentes do celular, estamos algemados para o bem e para o mal. Com a pandemia desde fevereiro de 2020, o que nos salvou foi esta ferramenta, nos mantendo em contato e encontrando o alento do carinho fraternal do grupo.

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