quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sentimentos, fragmentos de dor.( alguns casos).

1. Alguém que amo em doença degenerativa.

-Meu intelecto e meus afetos não reconhecem mais o corpo que antes concretizavam as ações entre o pensar e o fazer. Filosoficamente, é como se eu estivesse vivendo a separação do espírito e da matéria. O reencontro dá-se no riso e no choro, quem sabe por meu corpo ainda ter autonomia para viabilizar tais emoções. São três anos de angústia, desespero e tristeza indescritíveis. Entretanto, sempre acreditei que o ser humano possui possibilidades de reinventar a vida em quaisquer circunstâncias. E essa crença me faz sentir que apenas "quebrei as asas" e terei de aprender a alçar outros e novos vôos.

2. Alguém que amo em dieta (ameaças de diabetes).

-Abro a geladeira, meu paladar anseia pelo doce de uma barra de chocolate (adoro Prestígio). Sugo a saliva, a língua tropeça no canino, soluça entre os molares, meu estômago arrota o almoço e minhas mãos apertam a porta como se empunhassem o gatilho de uma arma letal.  Pego um limão, aliso sua casca rugosa, aperto com mais força e com coragem assumo minhas necessidades de conter o sonho de passear entre nuvens de algodão doce. Vou aprender a saborear outras doçuras da vida, filtrar minhas vontades entre folhas de alfaces tenras, grelhados crocantes e néctar de frutas, sem exagerar, é claro. E o mais importante, me relacionar com pessoas de bom humor, que sejam doces diante da vida.

3. Alguém que amo e foi traída pelo seu parceiro.

-Descubro a traição aos vinte e oito anos, tinha acabado de parir meu segundo filho e diante de um corpo ainda deformado pela recente gravidez acabei desculpando a traição por sentir que estava menos atraente, assim continuei, como se nada tivesse acontecido. Meu corpo foi recuperando as formas pelo tempo generoso, mas a alma se retraiu para um canto escuro, perdi o interesse por tudo. Distanciei do movimento natural da família, virei um robot, comecei a desviar o intelecto apenas para os assuntos domésticos e com algum esforço participava do convívio social. O tempo marcou a juventude e o meu olhar vazio e já sem lágrimas acabou ativando o falar constante, o eterno reclamar. Virei uma chata, contaminada socialmente e acolhida por aqueles que tentavam ajudar, sem sucesso. A mágoa virou uma forma bruta em meu coração. Um dia a dor escapou, se exibindo no espelho, num rosto enrugado e os nos cabelos grisalhos. Repensei, tenho que virar o jogo, tenho que  aprender a viver com os presente que a vida me deu: o sorriso do neto, a faceirice da querida neta, o abraço cansado da minha velha mãe e claro a esperança e a paciência, sempre presentes nos corações de meus filhos queridos.
A saudade de meu companheiro, falecido, apesar da traição, foi o provedor das alegrias da virada deste jogo da vida. Hoje consigo até sentir uma forma de gratidão amorosa por ele.

4. Alguém num sonho perfeito e não concretizado.

Planejei tudo à perfeição, após a faculdade abriria meu escritório e me dedicaria a causas humanitárias. Como num filme me vi mentalmente pregando uma linda placa acima da porta de um escritório.

Dra. X XXXXXXXX
Advogada especialista
  Leis do Trabalho

Roupas sofisticadas, entrando e saindo de tribunais, carregando uma bolsa maravilhosa, carro próprio e muito luxo.
Agora aqui estou abrindo uma comida congelada, morta de fome, tenho que pegar um plantão daqui a meia hora. Sou balconista de uma farmácia, com atendimento 24 horas, ando de metrô, carrego uma enorme bolsa, cheia de biju, que faço como bico para aumentar o meu orçamento. O que deu errado?
Distração, muita festa, notas abaixo da média, preguiça, rebeldia no momento exato de atravessar a ponte entre a adolescência e a maturidade e o maior defeito, surdez crônica para os conselhos dos meus pais. Sinceramente, vou tentar, para o próximo ANO, terei coragem de fazer o esforço e as mudanças necessárias.

5- Uma gravidez inoportuna e interrompida.
Sinto dores por todo o corpo, medo, insônia e a mente que não descansa depois de um dia de trabalho, onde tento esquecer do meu desespero, passo o dia trabalhando loucamente, arranjando programas para apos o expediente, mas o dia termina, estou só. Tenho que conseguir dormir, afinal começo logo cedo a distribuir sorrisos no trabalho de atendente em uma clínica de repouso para idosos. Ouço durante o dia todos se queixando da saudade de um tempo juvenil. Quando jovens jamais imaginaram um dia ter que deixar o conforto de seus lares para viverem em um lugar tão triste. Tento animá-los com afeto e delicadezas próprias de um ente da família, mas não sou a filha querida, sou apenas uma amiga que profissionalmente os ajuda, melhorando seus dias com respostas decoradas no treinamento que recebi por semanas.
Estou só e é claro que meu coração chora me sinto culpada desta situação, quando fiz escolhas que desviaram da minha vida a oportunidade de ter um filho, ou filha que motivasse meus dias e enriquecessem minha alma de afeto, amor e o calor de um ser que incondicionalmente traria alegria aos meus dias. Hoje apenas ficou a insônia e a sensação e dor eterna.











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